Sunday, December 27, 2009

pra virar o ano.

©2007-2009 *Grwobert

Certa vez comentei sobre os nortes temporais que criamos, inventamos, de que nos cercamos, pra nos protegermos do próprio tempo que passa e passa.


Criamos em blocos, em pontos, em quadrados de memórias, descrições de itinerários. Em linhas e nós. No vem-ano-passa-ano, não basta os deixarmos flutuando por aí, nisso que chamam de viver. Encucamos de relembrá-los, escrevê-los, mastigá-los, costurá-los. Torcer e espremer, e viver de novo, um a um, pra sentirmos que existiram de fato. Pra sentir que, olhando o todo, as coisas finalmente fazem algum sentido, e vale parar um pouquinho pra planejar a próxima volta em torno do Sol.


Mas nunca adianta. É sempre um rebuliço. E sempre diferente.


Claro que inventamos outros marcos pra nos nortearmos, além dos dias do ano. Esse post, por exemplo, é o último de 2009, mas coincidentemente também é o meu 100º post por aqui. Fica também próximo do 3º aniversário desse blog. E se eu parar mais uns dez minutos pra procurar, deve haver outras n associações com listas e numerações.


E é incrível como nada disso importa. E como a gente prende as teclas do teclado de se importar com isso tudo. Pra olhar pra trás sem parecer bagunça; pra prosseguir da forma mais pura.


Pois bem, se é pra prosseguir. Que seja.


2009.


O ano que pareceu ter poucos meses; o ano em que poucos meses duraram anos; em que alguns dias se arrastaram e arrasaram e trouxeram o dilúvio; em que outros, de tão felizes, fugiram com o vento e leves chuvas.


Um ano comum de qualquer pessoa que, assim como eu, parou pra prestar atenção no céu quando o outono chegou. E quando foi embora. E quando chegou de novo, completamente fora de hora.


Um ano comum de qualquer pessoa que, assim como eu, se descobriu em vários. Que gritou a alma debaixo da água pra espantar os fantasmas; que nadou dois oceanos pra esgotar o corpo, pra perder o ar, pra dormir sem mágoas. Que correu em bosques, correu parado, correu a cabeça, correu a fita pra frente tentando prever o que lá vinha. Que descobriu que nem sempre conviver com coisas mal-resolvidas é a melhor forma de resolvê-las; e pela primeira vez se afastou delas pra saná-las. E que logo depois achou outras pra fazer o contrário, olhar de frente e encará-las.


Um ano comum de qualquer pessoa que, assim como eu, inventou um mundinho de doer. Deixou entrar nele gente pra consumir as horas, as noites, e outras, e outras mais, consumir a saúde, a cabeça, as letras, as notas, os artistas, os prazeres, a carne, a pele, o fígado, o estômago. Chorou caindo no asfalto, apertada na cama, olhando pra cima e perdendo as estrelas; e chorou tão pouco e tão amargo que tinha certeza é que chorava por dentro, e que havia perdido as lágrimas também.


Que perdida na estrada encontrou outros amparos, e gente pra levá-la pra passear na estrada, pra dançar balé no quarto, pra escrever poemas nos domingos, pra fazer uma pequena terra recuperar sua alma. E gente pra dar bronca e ceifar moitas, dessas que escondem ervas-daninhas, e gente pra dar as mãos e fazer um carinho, e lembrar que todo esse mundo de doer é de mentirinha. Gente pra abrir a porta do táxi amarelo e lembrar que afastar quilômetros ajuda sim. Gente nova e gente velha, na volta pra casa, contando o que é dormir, o que é lar, o que é amor, o que é família. Gente pra ajudar a curar saudade. Gente pra ensinar o caminho da espiritualidade.


Um ano que deixou uns sonhos na gaveta, pra realizar mais pra frente. E que encontrou outros pra fazer agora, em tarefas boas igualmente. Que ensinou muitas coisas, dos livros, dos outros, de toda a gente.


Um ano comum de qualquer pessoa que, assim como eu, trocou os nomes e as coisas por simples metáforas. Pra poder falar delas, como encontros em sonhos. Pra poder olhar pro relógio imóvel, contar com as estrelas, pensar na loucura; se desfazer dela, e colorir de novo o mundo. Deixar tudo mais leve, jogar livros pro céu, achar pincéis na gaveta, a voz na garganta, a inspiração guardada, soltar os balões pro mundo. Pra poder ser feliz, por inteiro, sem machucar ninguém, sem carregar culpa.


Um ano de guardar as lembranças em capítulos, mais alguns, dessa história tão bonita. Essa de qualquer um de nós, que pode ser a minha, a sua, a de qualquer um que quiser prestar atenção no céu e pintar nele o que quiser. Essa de qualquer um de nós que nem notamos as estações passando, os personagens mudando, o enredo ajustando. E depois do estranhamento, vimos o quão bom foi tudo isso, pra fazer crescer, e ver brotando os novos frutos.


Essa de qualquer um de nós que senta no fim de cada ano, pra pensar em cada coisa que passa. Pra transformar o tempo em pontos, em flashes, instantes, nos protegermos de nós mesmos. E ver que no fim das contas, o ano que passou não teve nada de comum; foi é muito especial. Como cada ano tem que ser.


Que venham os rebuliços, como em fogos de artifício.


E que a gente continue inventando de medir o tempo que passa: essa é a graça.


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Pra cada um de vocês, cada um mesmo, um 2010 de sentir e voar. De se deixar levar.